Maria Radiante

Viagens…

4 comentários

Há vários tipos de viagens. Eu hoje lembrei-me, no entanto, de algo muito específico no passeio de autocarro que fiz. Passei pela escola onde completei o nono ano e, um pouco mais acima da escola existe uma rotunda onde havia um terreno vazio na altura (agora é uma moradia a servir de centro de explicações) que tinha uma árvore que – acho eu – tinha sido queimada e como tal nunca tinha folhas. Era a árvore do diabo… coisas de putos com dez anos e medo de tudo e à descoberta de um novo mundo.

 Sempre morei perto das escolas onde estudei (sim, escolas plural, só na primária foram quatro, mas isso é todo um outro assunto), ou então ia de carro, quando fui para o quinto ano demorava uns trinta minutos a pé e era, de todas as vezes, uma grande aventura. Ainda me lembro do primeiro dia em que me falhou a boleia para a escola, eu não sabia o caminho e fiquei em casa a chorar porque não tinha como ir para a escola. Quando o meu pai chegou ao fim da tarde foi fazer o caminho comigo a pé para lá e de volta para casa para não tornar a faltar às aulas por uma idiotice destas. E sim, eu fiquei a chorar porque sempre adorei a escola e faltar para mim não era opção.

Mas adiante que ainda não cheguei ao meu assunto. Essa árvore do diabo, dizíamos nós que era onde morava o Viagens. Ein? Quê? O Viagens? Como assim? Eu explico. O Viagens era um sem abrigo (suponho eu) que vagabundeava pelas ruas daquela zona. Era uma personagem (aos olhos de miúdos de dez anos) sinistra. Ele falava sozinho e não parecia simpatizar com criançada – hoje em dia acho que devia ser por muita criançada não o tratar bem -, berrava com os miúdos que passavam por ele e, sim, cheirava mal. Sempre que eu o via, mudava de passeio, morria de medo dele. Sei lá, eu era apenas uma miúda que nunca tinha saído à rua sozinha antes e o senhor assustava-me. Chamava-se Viagens penso que fosse por andar sempre em viagem deambulando pelas ruas, nunca parava em sítio nenhum. De todas as vezes que leio o conto de Sophia de Mello Breyner Andresen, “Homero”, só consigo imaginar o Viagens, porque era tal e qual. Por acaso, este é um dos textos de que gosto de verdade de Sophia e acho que é por me identificar com aquele cenário social.

O Viagens era tema de imensas conversas e conjeturas. Muitos de nós achávamos que ele seria, na verdade, riquíssimo e que andava pelas ruas por opção. Verdade seja dita, nunca o vimos a dormir na rua, nem de dia, nem de noite. Mas eu acredito, hoje em dia, que pensávamos assim, para não termos de aceitar a dura e crua realidade de que aquela pessoa não tinha nada. Víamo-lo sempre numa padaria daquelas à antiga onde ia comprar pão e vinho todos os dias. Cheirava sempre muito a vinho e isso também ajudava mais a meter-nos medo.

Ao fim de uns anos, deixámos de ver o Viagens a viajar por aquelas ruas perdidas. Correu o boato de que teria, finalmente, sido acolhido pela sua família riquíssima e que o tinham visto todo engravatado e limpinho, mas eu cá acho que o mito do medo da minha adolescência deve ter morrido. E fico triste. Mesmo à luz de tantos anos que já passaram, e mesmo depois de ter tido tanto medo da personagem, o Viagens fez parte da minha viagem.

 Diz-se que todos nós estamos vivos enquanto alguém se lembrar de nós, pois mesmo ausentes deste mundo vivemos nas memórias de quem cá fica. Não sei se o Viagens, sempre sozinho com o seu saco com pão e vinho, teria alguém para se lembrar dele, mas eu lembrei-me. Fica a minha memória.

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4 thoughts on “Viagens…

  1. que lindo minha filhinha agora fizes te chorar a pessoas a preocuparem se com coisas que nao tem assunto e tu lembras te do viagens so mostra esse coraçao nobre que tu tens ainda ha duas semanas quando estava na casa dos tios falavamos da avo sara em como ela se fosse viva gostaria de estar ali naquele momento e o teu tio respondeu me e nao esta?” para mim esta e sempre estara fiquei tao feliz e emocionada por ele gostar tanto da minha mae como da dele e se lembrar dela por isso minha querida as vezes faz bem as pessoas se lembrar das que ja nao estao ca mas ficam para sempre na nossa memoria bjs amo te minha vida

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  2. Gostei muito, de tudo o que escreveste, eu também conhecia o viagens, de facto é tudo como tu contastes.Beijos e bem haja.

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